Eu não pude decidir

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Hoje eu percebi que eu fui hipócrita maior parte da minha vida. Defendia que o dever de cada mulher era se impor e fazer a justiça de forma instantânea -custasse o que que custar-. A gente sempre acha que se estivesse no lugar da outra pessoa faria diferente, seria mais forte, mais prudente. O que a gente não sabe é que quando dói na própria pele, o corpo adoece, a alma padece e o coração nos engana.
Meu objetivo com esse texto não é ganhar meus cinco minutos de fama, não é querer aparecer. A única vantagem disso é poder te dizer: Tu não estás sozinha!

Agora com vinte e três anos eu trabalho de forma pública, e muita gente que me acompanha vê em mim uma inspiração pelas cicatrizes que eu carrego. O problema é que as feridas mais profundas não são vistas por vocês, elas ardem no sangue e borbulham toda vez que eu tento (ou tentava ignorar meu passado).
Era meados de dezembro e eu tinha acabado de completar dezesseis anos. Sempre fui uma adolescente normal, o que não tem muita definição. Adolescente é adolescente, e acho que todo mundo sabe como funciona. Eu saia, me divertia e nunca tinha pensado em algo a mais até então.  Em uma tarde após a escola eu chamei alguns amigos para irem beber escondido na minha casa, o que pra mim era ser super pra frente naquela época.
Estávamos em quatro pessoas, eu e uma amiga e mais dois amigos homens. Nós saíamos juntos, íamos ao cinema e eu já tinha até tido um romancezinho com um deles, mas somente coisa inocente. Nós começamos a beber uma garrafa de destilado, e logo depois a minha amiga estava já muito mal. Eu a deixei dormir na minha cama, mas logo em seguida ela acabou vomitando e tendo que ir tomar banho. Quem a levou para o chuveiro foi o seu melhor amigo da época, o que eu não via nada de errado, pois o menino que eu mais confiava com dezesseis anos continuou meu amigo até que a vida separasse por destinos diferentes, enfim.
Enquanto isso eu fiquei no quarto conversando, rindo e falando algumas bobagens, até notar que Felicia (nome fictício) estava demorando demais com Pablo (Nome fictício) e fui averiguar. Chegando lá ele estava tentando tirar a roupa dela para dar banho e eu impedi e mesmo um pouco alterada eu o tirei de lá e terminei o processo. Meu pai iria chegar em meia hora, então como ele e a mãe de Bruno (nome fictício, que era o outro amigo que estava lá) eram conhecidos de longas datas, resolvi levar Felícia para casa de Bruno que era próxima dali e aguardar até que ela ficasse bem.

Assim o fizemos, logo que chegamos no apartamento de Bruno eu a coloquei na cama, tapada e sentei no puff da frente para ficar cuidando até que ela acordasse. O que eu não sabia era que o álcool dava um efeito rebote no meu corpo, e em seguida o que era ‘pouco alterada’ pode ser classificado como ‘quase estado de coma’. Eu não lembro muito do que aconteceu, eu estava vendo tudo girar quando Bruno e Pablo entraram no quarto e começaram a procurar algo. Eu podia sentir o vômito indo e voltando da minha garganta, até que um nó se instalou quando ouvi Bruno dizer: ”Não sei onde tem camisinha”. Os dois procuraram o quarto inteiro. Eu não sei se tentei levantar, eu não tenho memória disso. Aliás, a única memória que tenho é de Bruno mandando Pablo sair e fechar a porta e algum flash-back de Bruno em cima de mim como se eu fosse um pedaço de carne. Eu nunca tinha pensado em perder a virgindade, era algo que não passava na minha cabeça. Eu era muito nova. Mas há sete anos atrás essa inocência foi tirada a força de mim.

Sempre que me perguntavam como tinha sido a minha primeira vez eu dizia rindo: ”Não lembro, estava bêbada” e tentava me convencer de que isso era normal, de que estava tudo bem… até o momento que eu percebi que não estava. Foram anos tentando esconder essa dor, tentando entender o porque de ter me tornado tão diferente após isso. Eu não era mais eu, eu havia amadurecido a força,  eu havia perdido o melhor que existia em mim: Minha liberdade.

Eu não fui capaz de decidir quando meu corpo estaria pronto, eu não tive um preparo, eu não tive quem pedir ajuda. Por muito tempo eu achei que a culpa era minha, que eu pedi por isso. Esse pensamento do machismo impregnado na minha mente me fez aceitar que eu tinha merecido por aquilo. Eu tive vergonha, eu tive ânsia de pensar sobre o assunto. Eu tentei entrar em contato com Bruno diversas vezes e eu não sei nem o porquê. A última vez que eu tive notícias, eu soube que Bruno admitiu ser gay para todos, o que eu já sabia desde a época do que aconteceu, e esse era um dos motivos do qual eu me sentia segura perto dele. Eu não sei o que aconteceu com Pablo, mas hoje eu sei que ele foi cúmplice de um crime.

Hoje eu consigo ver como eu fui hipócrita em julgar mulheres que passaram por isso e nunca denunciaram, que não tiveram coragem de tocar no assunto, que aceitaram que estava tudo bem porque a sociedade disse que a culpa era delas. Mas não é, a culpa nunca foi minha. Eu não pedi por isso, eu não dei autorização para violarem meu corpo. O meu único erro foi confiar amizade na pessoa errada.

O que eu quero dizer com esse texto é que no dia que caiu a ficha de que foi estupro, eu chorei, chorei e chorei. Era uma mistura de alívio com tristeza por ter sido mais uma vítima que ficou calada por tanto tempo. Aquilo que passava na tv não era mais fictício, eu percebi que eu era mais uma entre tantas estatísticas. Eu percebi que assim como eu, milhões de pessoas devem ter passado pelo mesmo e até hoje tentam repudiar o pensamento da mente como forma de tentar esquecer o que passou. É triste saber que qualquer pessoa pode passar por isso, que meu corpo foi de uso de prazer para qualquer um assim como existem várias mulheres vivendo isso agora.

A culpa NÃO é sua e nunca vai ser. Eu sei que é difícil a gente encarar a dor de frente, deixar a vergonha de lado e se expor assim. Mas a gente precisa, precisamos mostrar para o mundo que isso existe sim, assim como aconteceu com a filha da minha mãe (eu), pode acontecer com a sua filha, sua sobrinha ou sua prima. Isso não acontece somente no noticiário da globo, está mais perto do que você imagina.

Eu só quero usar esse meu pouco influenciamento digital para te dizer: TU NÃO ESTÁS SOZINHA, TUA DOR É A MINHA! Que essa minha pouca imagem ajude a mana que está passando pelo menos e não sabe como agir, que ela saiba que eu também passei por isso e sei como dói. Esse texto é pra dizer que nós fomos vitimas e não existe outro termo para isso. Eu não vou me calar, tenho em mente que eu preciso falar sobre isso e ajudar quem passou pelo mesmo. Como dizia John Lennon:

”Imagine todas as pessoas

Vivendo a vida em paz

Você pode dizer que eu sou um sonhador

Mas eu não sou o único”

 Att,

Caroline Larroque

4 comentários em “Eu não pude decidir

  1. Querida,
    Sinto muito pelo que passou. A primeira vez da mulher deveria ser algo a ser lembrado com carinho pelo menos. O cara que fez isso com você é um monstro.
    Acredito muito na lei do retorno e o que é dele tenho certeza que está preparado o esperando.
    Deus nunca falha!
    Parabéns pela coragem em se expor e por principalmente querer ajudar!
    Beijos e muita força.

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